{"id":280,"date":"2012-02-10T13:59:10","date_gmt":"2012-02-10T15:59:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/?p=280"},"modified":"2012-02-10T14:01:19","modified_gmt":"2012-02-10T16:01:19","slug":"idioma-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/2012\/02\/10\/idioma-do-brasil\/","title":{"rendered":"Idioma do Brasil"},"content":{"rendered":"<h5>O tupi, primeiro idioma encontrado pelos portugueses no Brasil de 1500, ainda resiste no nosso vocabul\u00e1rio. Agora tem gente querendo v\u00ea-lo at\u00e9 nas escolas. Em pleno s\u00e9culo XXI.<\/h5>\n<p>No auge de sua loucura, o ultranacionalista personagem de Triste Fim de Policarpo Quaresma, livro cl\u00e1ssico de Lima Barreto (1881-1922), conclamava seus contempor\u00e2neos a abandonar a l\u00edngua portuguesa em favor do tupi. Hoje, 83 anos depois da publica\u00e7\u00e3o da obra, o sonho da fic\u00e7\u00e3o surge na realidade. O novo Policarpo \u00e9 um respeitado professor e pesquisador de Letras Cl\u00e1ssicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Eduardo Navarro. H\u00e1 dois meses, ele fundou a Tupi Aqui, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental (ONG) que tem por objetivo lutar pela inclus\u00e3o do idioma como mat\u00e9ria optativa no curr\u00edculo das escolas paulistas. \u201cQueremos montar vinte cursos de tupi em S\u00e3o Paulo no ano que vem\u201d, disse \u00e0 SUPER. O primeiro passo j\u00e1 est\u00e1 dado: em maio, Navarro lan\u00e7ou o seu M\u00e9todo Moderno de Tupi Antigo e, em setembro, colocou nas livrarias Poemas \u2014 L\u00edrica Portuguesa e Tupi de Jos\u00e9 de Anchieta (ambos pela Editora Vozes), edi\u00e7\u00e3o bil\u00edng\u00fce de obras do primeiro escritor em l\u00edngua tupi.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista o projeto parece birutice. S\u00f3 que h\u00e1 precedentes. Em 1994, o Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro aprovou uma recomenda\u00e7\u00e3o para que o tupi fosse ensinado no segundo grau. A decis\u00e3o nunca chegou a ser posta em pr\u00e1tica por pura falta de professores. Hoje, s\u00f3 uma universidade brasileira, a USP, ensina a l\u00edngua, considerada morta, mas ainda n\u00e3o completamente enterrada.<\/p>\n<p>Em sua forma original, o tupi, que at\u00e9 meados do s\u00e9culo XVII foi o idioma mais usado no territ\u00f3rio brasileiro, n\u00e3o existe mais. Mas h\u00e1 uma variante moderna, o nheengatu (fala boa, em tupi), que continua na boca de cerca de 30 000 \u00edndios e caboclos no Amazonas. Sem falar da grande influ\u00eancia que teve no desenvolvimento do portugu\u00eas e da cultura do Brasil. \u201cEle vive subterraneamente na fala dos nossos caboclos e no imagin\u00e1rio de autores fundamentais das nossas letras, como M\u00e1rio de Andrade e Jos\u00e9 de Alencar\u201d, disse \u00e0 SUPER Alfredo Bosi, um dos maiores estudiosos da Literatura do pa\u00eds. \u201c\u00c9 o nosso inconsciente selvagem e primitivo.\u201d<\/p>\n<p>Todo dia, sem perceber; voc\u00ea fala algumas das 10 000 palavras que o tupi nos legou. Do nome de animais, como jacar\u00e9 e jaguar; a termos cotidianos como cutuc\u00e3o, mingau e pipoca. \u00c9 o que sobrou da l\u00edngua do Brasil.<\/p>\n<h2>Do Cear\u00e1 a S\u00e3o Paulo, mudavam s\u00f3 os dialetos<\/h2>\n<p>Quando ouvir dizer que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds tupiniquim, n\u00e3o se irrite. Nos primeiros dois s\u00e9culos ap\u00f3s a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores s\u00f3 conseguiu se impor no litoral no s\u00e9culo XVII e, no interior; no XVIII. Em S\u00e3o Paulo, at\u00e9 o come\u00e7o do s\u00e9culo passado, era poss\u00edvel escutar alguns caipiras contando casos em l\u00edngua ind\u00edgena. No Par\u00e1, os caboclos conversavam em nheengatu at\u00e9 os anos 40.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o tupi foi quase esquecido pela Hist\u00f3ria do Brasil. Ningu\u00e9m sabe quantos o falavam durante o per\u00edodo colonial. Era o idioma do povo, enquanto o portugu\u00eas ficava para os governantes e para os neg\u00f3cios com a metr\u00f3pole. \u201cAos poucos estamos conhecendo sua real extens\u00e3o\u201d, disse \u00e0 SUPER Aryon Dall\u2019Igna Rodrigues, da Universidade de Bras\u00edlia, o maior pesquisador de l\u00ednguas ind\u00edgenas do pa\u00eds. Os principais documentos, como as gram\u00e1ticas e dicion\u00e1rios dos jesu\u00edtas, s\u00f3 come\u00e7aram a ser recuperados a partir de 1930. A pr\u00f3pria origem do tupi ainda \u00e9 um mist\u00e9rio. Calcula-se que tenha nascido h\u00e1 cerca de 2500 anos, na Amaz\u00f4nia, e se instalado no litoral no ano 200 d.C. \u201cMas isso ainda \u00e9 uma hip\u00f3tese\u201d, avisa o arque\u00f3logo Eduardo Neves, da USP.<\/p>\n<h2>Tr\u00eas letras fatais<\/h2>\n<p>Quando Cabral desembarcou na Bahia, a l\u00edngua se estendia por cerca de 4 000 quil\u00f4metros de costa, do norte do Cear\u00e1 a Iguape, ao sul de S\u00e3o Paulo. S\u00f3 variavam os dialetos. O que predominava era o tupinamb\u00e1, o jeito de falar do maior entre os cinco grandes grupos tupis (tupinamb\u00e1s, tupiniquins, caet\u00e9s, potiguaras e tamoios). Da\u00ed ter sido usado como sin\u00f4nimo de tupi. As brechas nesse imenso territ\u00f3rio idiom\u00e1tico eram os chamados tapuias (escravo, em tupi), pertencentes a outros troncos ling\u00fc\u00edsticos, que guerreavam o tempo todo com os tupis. Ambos costumavam aprisionar os inimigos para devor\u00e1-los em rituais antropof\u00e1gicos. A guerra era uma atividade social constante de todas as tribos ind\u00edgenas com os vizinhos, at\u00e9 com os da mesma unidade ling\u00fc\u00edstica.<\/p>\n<p>Um dos viajantes que escreveram sobre o Brasil, Pero Magalh\u00e3es G\u00e2ndavo, atribuiu, delirantemente, a belicosidade dos tupinamb\u00e1s \u00e0 l\u00edngua. \u201cN\u00e3o se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, pois assim n\u00e3o t\u00eam F\u00e9, nem Lei, nem Rei e, desta maneira, vivem sem justi\u00e7a e desordenadamente\u201d, escreveu em 1570. Para os portugueses, portanto, era preciso converter os selvagens \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica, o que s\u00f3 aconteceu quando os primeiros jesu\u00edtas chegaram ao Brasil, em 1553. Esses mission\u00e1rios se esmeraram no estudo do tupi e a eles se deve quase tudo o que hoje \u00e9 conhecido sobre o idioma.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, n\u00e3o havia outro jeito. Quando Portugal come\u00e7ou a produzir a\u00e7\u00facar em larga escala em S\u00e3o Vicente (SP), em 1532, a l\u00edngua bras\u00edlica, como era chamada, j\u00e1 tinha sido adotada por portugueses que haviam se casado com \u00edndias e por seus filhos. \u201cNo s\u00e9culo XVII, os mesti\u00e7os de S\u00e3o Paulo s\u00f3 aprendiam o portugu\u00eas na escola, com os jesu\u00edtas\u201d, diz Aryon Rodrigues. Pela mesma \u00e9poca, no entanto, os faladores de tupi do resto do pa\u00eds estavam sendo dizimados por doen\u00e7as e guerras. No come\u00e7o daquele mesmo s\u00e9culo, a l\u00edngua j\u00e1 tinha sido varrida do Rio de Janeiro, de Olinda e de Salvador; as cidades mais importantes da costa. Hoje, os \u00fanicos remanescentes dos tupis s\u00e3o 1 500 tupiniquins do Esp\u00edrito Santo e 4 000 potiguaras da Para\u00edba. Todos desconhecem a pr\u00f3pria l\u00edngua. S\u00f3 falam portugu\u00eas.<\/p>\n<h2>O primeiro gram\u00e1tico<\/h2>\n<p>Joseph de Anxieta, mais tarde Jos\u00e9 de Anchieta (1534\u20141595), sempre foi poliglota. Nascido nas Ilhas Can\u00e1rias, era filho de pai basco e aprendeu, ao mesmo tempo, o castelhano e o complicado idioma paterno. Adolescente, mudou-se para Portugal, onde estudou o portugu\u00eas, o latim e o grego.<\/p>\n<p>Por tudo isso, n\u00e3o \u00e9 de espantar que Anchieta tenha aprendido o tupi t\u00e3o depressa. Seus companheiros diziam que ele tinha facilidade porque a l\u00edngua era igualzinha ao basco que assimilara quando pequeno. Bobagem. T\u00e3o logo p\u00f4s os p\u00e9s no Brasil, em 1553, aos 19 anos, come\u00e7ou a desenvolver a primeira gram\u00e1tica da l\u00edngua da terra. Em 1560, sua Arte de Grammatica da Lingoa Mais Vsada na Costa do Brasil j\u00e1 era um best-seller entre os jesu\u00edtas. O livro, que s\u00f3 seria impresso em 1595, virou leitura de cabeceira dos jovens padres encarregados da catequese. Com ele, nascia o tupi escrito, que Anchieta usou para compor mais de oitenta poemas sacros e pe\u00e7as de teatro, inaugurando a literatura brasileira.<\/p>\n<h3>Haja parente!<\/h3>\n<h2>O tupi e outras l\u00ednguas de sua fam\u00edlia<\/h2>\n<p>\u00c9 comum ver pol\u00edticos do hemisf\u00e9rio norte confundindo o Brasil com a Argentina e o espanhol com o portugu\u00eas. Pois a mesma confus\u00e3o \u00e9 feita, aqui no Brasil, com as l\u00ednguas dos \u00edndios. Poucos sabem, mas \u00e9 errado dizer que os \u00edndios falavam tupi-guarani. \u201cTupi-guarani \u00e9 uma fam\u00edlia ling\u00fc\u00edstica, n\u00e3o um idioma\u201d, explica o ling\u00fcista Aryon Rodrigues. Ele a compara \u00e0 fam\u00edlia neolatina, \u00e1 qual pertencem o portugu\u00eas, o espanhol e o franc\u00eas. Os tr\u00eas t\u00eam uma origem comum, o latim, mas diferem uns dos outros. O extinto tupi antigo, o ainda usad\u00edssimo guarani moderno \u2014 falado por quase 5 milh\u00f5es de pessoas no Paraguai e 30 000 no Brasil \u2014 e outros 28 idiomas derivam de uma mesma fala, o proto-tupi. Os guaranis e os tupis at\u00e9 que se entendiam. Mas, dentro da fam\u00edlia, eles s\u00e3o apenas parentes pr\u00f3ximos, n\u00e3o irm\u00e3os. Para perguntar \u201cqual \u00e9 o seu nome\u201d, um guarani diria Mba\u2019eicha nde r\u2019era?, e um tupiniquim, Mam\u00f5-pe nde rera?. N\u00e3o d\u00e1 para confundir, d\u00e1?<\/p>\n<h3>O come\u00e7o do fim<\/h3>\n<h2>Ascens\u00e3o e queda de um idioma<\/h2>\n<p>S\u00e9culo XVI: O tupi, principalmente o dialeto tupinamb\u00e1, que ficou conhecido como tupi antigo, \u00e9 falado da foz do Amazonas at\u00e9 Iguape, em S\u00e3o Paulo. Em vermelho, voc\u00ea v\u00ea os grupos tapuias, como os goitac\u00e1s do Rio de Janeiro, os aimor\u00e9s da Bahia e os trememb\u00e9s do Cear\u00e1, que viviam em guerra com os tupis. De Canan\u00e9ia \u00e0 Lagoa dos Patos fala-se o guarani.<\/p>\n<p>S\u00e9culos XVII\/XVIII: O exterm\u00ednio dos tupinamb\u00e1s, a partir de 1550, a imigra\u00e7\u00e3o portuguesa maci\u00e7a e a introdu\u00e7\u00e3o de escravos africanos praticamente varre o tupi da costa entre Pernambuco e Rio de Janeiro. Em S\u00e3o Paulo e no Par\u00e1, no entanto, ele permanece como l\u00edngua geral e se espalha pelo interior, levado por bandeirantes e jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>S\u00e9culo XX: O portugu\u00eas se consolida a partir da metade do s\u00e9culo XVIII. O tupi antigo desaparece completamente, junto com outras l\u00ednguas ind\u00edgenas (das 340 faladas em 1500, sobrevivem, hoje, apenas 170). A l\u00edngua geral da Amaz\u00f4nia, o nheengatu, continua sendo falada no alto Rio Negro e na Venezuela por cerca de 30 000 pessoas.<\/p>\n<p>Fonte: www.nautilus.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tupi, primeiro idioma encontrado pelos portugueses no Brasil de 1500, ainda resiste no nosso vocabul\u00e1rio. Agora tem gente querendo v\u00ea-lo at\u00e9 nas escolas. Em pleno s\u00e9culo XXI. 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