{"id":720,"date":"2013-10-02T04:16:09","date_gmt":"2013-10-02T06:16:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/?p=720"},"modified":"2013-10-02T04:16:09","modified_gmt":"2013-10-02T06:16:09","slug":"cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/2013\/10\/02\/cronica\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica!"},"content":{"rendered":"<p>Bom dia!<\/p>\n<p>Que tal come\u00e7ar o dia com uma cr\u00f4nica de Luis Fernando Verissimo?<\/p>\n<p>Conhecido por seu bom humor relacionado \u00e0s hist\u00f3rias do cotidiano, Verissimo \u00e9 um escritor ga\u00facho contempor\u00e2neo, filho de \u00c9rico Verissimo.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica que escolhi \u00e9 sobre um dos temas mais comuns da vida &#8211; o relacionamento amoroso.<\/p>\n<p>Vejam o que acontece por uma alian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Uma \u00f3tima semana a todos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><b>A alian\u00e7a \u2013<\/b><b> Luis Fernando Verissimo<\/b><b><\/b><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria exemplar, s\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 muito claro qual \u00e9 o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crian\u00e7as. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem nada a ver com a crise brasileira, o <i>apartheid<\/i>, a situa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Central ou no Oriente M\u00e9dio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas afli\u00e7\u00f5es da classe m\u00e9dia. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fict\u00edcio, claro.<\/p>\n<p>Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias \u00e0 mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que j\u00e1 sabe que nunca ser\u00e1 o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, n\u00e3o um dos grandes macacos que o desafiavam no j\u00e2ngal dos seus sonhos de inf\u00e2ncia, mas o macaco do seu carro tamanho m\u00e9dio, que provavelmente n\u00e3o funcionaria, resigna\u00e7\u00e3o e retic\u00eancias&#8230; Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e j\u00e1 estava fechando o porta-malas quando a sua alian\u00e7a escorregou pelo dedo sujo de \u00f3leo e caiu no ch\u00e3o. Ele deu um passo para pegar a alian\u00e7a do asfalto, mas sem querer a chutou. A alian\u00e7a bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as m\u00e3os o melhor que p\u00f4de, entrou no carro e seguiu para casa. Come\u00e7ou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo \u00e0s perguntas da mulher antes de ela faz\u00ea-las.<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que me aconteceu!<br \/>\n\u2014 O qu\u00ea?<br \/>\n\u2014 Uma coisa incr\u00edvel.<br \/>\n\u2014 O qu\u00ea?<br \/>\n\u2014 Contando ningu\u00e9m acredita.<\/p>\n<p>\u2014 Conta!<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o nota nada de diferente em mim? N\u00e3o est\u00e1 faltando nada?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o.<br \/>\n\u2014 Olhe.<br \/>\nE ele mostraria o dedo da alian\u00e7a, sem a alian\u00e7a.<br \/>\n\u2014 O que aconteceu?<br \/>\nE ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O \u00f3leo. A alian\u00e7a no asfalto. O chute involunt\u00e1rio. E a alian\u00e7a voando para o bueiro e desaparecendo.<br \/>\n\u2014 Que coisa &#8211; diria a mulher, calmamente.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de acreditar?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o. \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel.<br \/>\n\u2014 Pois \u00e9. Eu&#8230;<br \/>\n\u2014 SEU CRETINO!<br \/>\n\u2014 Meu bem&#8230;<br \/>\n\u2014 Est\u00e1 me achando com cara de boba? De palha\u00e7a? Eu sei o que aconteceu com essa alian\u00e7a. Voc\u00ea tirou do dedo para namorar. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma hist\u00f3ria em que s\u00f3 um imbecil acreditaria.<br \/>\n\u2014 Mas, meu bem&#8230;<br \/>\n\u2014 Eu sei onde est\u00e1 essa alian\u00e7a. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!<br \/>\nE ela sairia de casa, com as crian\u00e7as, sem querer ouvir explica\u00e7\u00f5es. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito tr\u00e2nsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:<br \/>\n\u2014 Que fim levou a sua alian\u00e7a? E ele disse:<br \/>\n\u2014 Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. N\u00e3o tenho desculpas. Se voc\u00ea quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.<br \/>\nEla fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.<br \/>\n\u2014 O mais importante \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o mentiu pra mim.<br \/>\nE foi tratar do jantar.<\/p>\n<p align=\"right\"><i><br \/>\nTexto extra\u00eddo do livro &#8220;<\/i>As mentiras que os homens contam<i>&#8220;, Editora Objetiva &#8211; Rio de Janeiro, 2000, p\u00e1g<\/i>. 37.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom dia! Que tal come\u00e7ar o dia com uma cr\u00f4nica de Luis Fernando Verissimo? Conhecido por seu bom humor relacionado \u00e0s hist\u00f3rias do cotidiano, Verissimo \u00e9 um escritor ga\u00facho contempor\u00e2neo, filho de \u00c9rico Verissimo. 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