{"id":749,"date":"2013-11-03T18:57:10","date_gmt":"2013-11-03T20:57:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/?p=749"},"modified":"2013-11-03T18:57:47","modified_gmt":"2013-11-03T20:57:47","slug":"um-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/2013\/11\/03\/um-conto\/","title":{"rendered":"Cem cruzeiros a mais"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Boa tarde, Dickinsonians!<\/p>\n<p align=\"left\">O servi\u00e7o p\u00fablico no Brasil \u00e9 criticado por sua intensa burocracia e complexidade. Acredito que muitos j\u00e1 passaram por esta situa\u00e7\u00e3o: esperar horas em uma fila para resolver algum problema, e quando FINALMENTE chega a sua vez, o atendente simplesmente diz que falta um papel ou documento e que voc\u00ea tem que voltar no dia seguinte. Dia seguinte: outra fila! Outro atendente, outra explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Para ilustrar esta situa\u00e7\u00e3o de forma c\u00f4mica, escolhi um texto de Fernando Sabino, escritor e jornalista brasileiro, mais conhecido por seu conto &#8220;O Homem Nu&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\">Espero que gostem!<\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">CEM CRUZEIROS A MAIS &#8211; FERNANDO SABINO<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">Ao receber certa quantia num guich\u00ea do Minist\u00e9rio, verificou que o funcion\u00e1rio lhe havia dado cem cruzeiros e mais. Quis voltar para devolver, mas outras pessoas protestaram: entrasse na fila.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">Esperou pacientemente a vez, para que o funcion\u00e1rio lhe fechasse na cara a janelinha de vidro:<br \/>\n&#8211; Tenham paci\u00eancia, mas est\u00e1 na hora do meu caf\u00e9.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">Agora era uma quest\u00e3o de teimosia. Voltou \u00e0 tarde, para encontrar\u00a0fila maior \u2013 n\u00e3o conseguiu sequer aproximar-se do guich\u00ea antes de encerrar-se o expediente.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">No dia seguinte era o primeiro da fila:<br \/>\n&#8211; Olha aqui: o senhor ontem me deu cem cruzeiros a mais.<br \/>\n&#8211; Eu?<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">S\u00f3 ent\u00e3o reparou que o funcion\u00e1rio era outro.<br \/>\n&#8211; Seu colega, ent\u00e3o. Um de bigodinho.<br \/>\n&#8211; O Mafra.<br \/>\n&#8211; Se o nome dele \u00e9 Mafra, n\u00e3o sei dizer.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 pode ter sido o Mafra. Aqui s\u00f3 trabalhamos eu e o Mafra. N\u00e3o fui eu. Logo&#8230;<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">Ele co\u00e7ou a cabe\u00e7a, aborrecido:<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bem, foi o Mafra. E da\u00ed?<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">O funcion\u00e1rio lhe explicou com toda urbanidade que n\u00e3o podia responder pela distra\u00e7\u00e3o do Mafra:<br \/>\n&#8211; Isto aqui \u00e9 uma pagadoria, meu chapa. N\u00e3o posso receber, s\u00f3 posso pagar. Receber, s\u00f3 na recebedoria. O pr\u00f3ximo!<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">O pr\u00f3ximo da fila, j\u00e1 impaciente, empurrou-o com o cotovelo. Amar o pr\u00f3ximo como a ti mesmo! Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Num s\u00fabito impulso de indigna\u00e7\u00e3o &#8211; agora iria at\u00e9 o fim &#8211; dirigiu-se \u00e0 recebedoria.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">&#8211; O Mafra? N\u00e3o trabalha aqui, meu amigo, nem nunca trabalhou.<br \/>\n&#8211; Eu sei. Ele \u00e9 da pagadoria. Mas foi quem me deu os cem cruzeiros a mais.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">Informaram-lhe que n\u00e3o podiam receber: tratava-se de uma devolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era isso mesmo? E n\u00e3o de pagamento. Tinha trazido a guia? Pois ent\u00e3o? Onde j\u00e1 se viu pagamento sem\u00a0guia? Receber mil cruzeiros a troco de qu\u00ea?<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">&#8211; Mil n\u00e3o: cem. A troco de devolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Troco de devolu\u00e7\u00e3o. Entenda-se.<br \/>\n&#8211; Pois devolvo e acabou-se.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 com o chefe. O pr\u00f3ximo!<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">O chefe da se\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha sa\u00eddo: s\u00f3 no dia seguinte. No dia seguinte, depois de faz\u00ea-lo esperar mais de meia hora, o chefe informou-se que deveria redigir um of\u00edcio historiando o fato e devolvendo o dinheiro.<\/span><\/p>\n<div align=\"left\">\n<p><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">&#8211; J\u00e1 que o senhor faz tanta quest\u00e3o de devolver.<br \/>\n&#8211; Quest\u00e3o absoluta.<br \/>\n&#8211; Louvo o seu escr\u00fapulo.<br \/>\n&#8211; Mas o nosso amigo ali do guich\u00ea disse que era s\u00f3 entregar ao senhor \u2013 suspirou ele.<br \/>\n&#8211; Quem disse isso?<br \/>\n&#8211; Um homem de \u00f3culos naquela se\u00e7\u00e3o do lado de l\u00e1. Recebedoria, parece.<br \/>\n&#8211; O Ara\u00fajo. Ele disse isso, \u00e9? Pois olhe: volte l\u00e1 e diga-lhe para deixar de ser besta. Pode dizer que fui eu que falei. O Ara\u00fajo sempre se metendo a entendido!<br \/>\n&#8211; Mas e o of\u00edcio? N\u00e3o tenho nada com essa briga, vamos fazer logo o of\u00edcio.<br \/>\n&#8211; Imposs\u00edvel: tem de dar entrada no protocolo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\">Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou ao Ara\u00fajo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, o honesto cidad\u00e3o dirigiu-se ao guich\u00ea onde recebera o dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros uma bolinha, atirou-a l\u00e1 dentro por cima do vidro e foi-se embora.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #003366;font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif;font-size: large\"><b>Autor:<br \/>\nFernando Sabino<\/b><br \/>\nCr\u00f4nica do livro &#8220;A Companheira de Viagem<br \/>\n(Editora Sabi\u00e1, 19725)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boa tarde, Dickinsonians! O servi\u00e7o p\u00fablico no Brasil \u00e9 criticado por sua intensa burocracia e complexidade. Acredito que muitos j\u00e1 passaram por esta situa\u00e7\u00e3o: esperar horas em uma fila para resolver algum problema, e quando FINALMENTE chega a sua vez, &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/2013\/11\/03\/um-conto\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1762,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1762"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}