{"id":773,"date":"2014-01-27T17:36:07","date_gmt":"2014-01-27T19:36:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/?p=773"},"modified":"2014-01-27T17:36:07","modified_gmt":"2014-01-27T19:36:07","slug":"um-sonho-de-simplicidade-rubem-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.dickinson.edu\/portugueseclub\/2014\/01\/27\/um-sonho-de-simplicidade-rubem-braga\/","title":{"rendered":"Um Sonho de Simplicidade &#8211; Rubem Braga"},"content":{"rendered":"<header>\n<div>Boa tarde!<\/div>\n<div>Fa\u00e7amos uma pausa no turbilh\u00e3o de compromissos e obriga\u00e7\u00f5es para ler esta cr\u00f4nica!<\/div>\n<div>Que esta leitura seja a sua prioridade nos pr\u00f3ximos cinco minutos&#8230; Cinco minutos de literatura e reflex\u00e3o!<\/div>\n<div>Boa semana a todos!<\/div>\n<h1>Um sonho de simplicidade \u2013 cr\u00f4nica de Rubem Braga<\/h1>\n<div><span style=\"line-height: 1.5em\">Ent\u00e3o, de repente, no meio dessa desarruma\u00e7\u00e3o feroz da vida urbana, d\u00e1 na gente um sonho de simplicidade. Ser\u00e1 um sonho v\u00e3o? Detenho-me um instante, entre duas provid\u00eancias a tomar, para\u00a0<\/span><a id=\"FALINK_3_0_2\" style=\"line-height: 1.5em\" href=\"http:\/\/contobrasileiro.com.br\/?p=1650#\"><\/a><span style=\"line-height: 1.5em\">me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles n\u00e3o me d\u00e3o prazer algum; apenas me fazem falta. S\u00e3o uma necessidade que inventei. Por que beber u\u00edsque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou amigos no bar para dizer coisas v\u00e3s, brilhar um pouco, saber intrigas?<\/span><\/div>\n<\/header>\n<div>\n<p>Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>A vida poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e n\u00e3o ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava \u00e1gua fresca da talha, e a \u00e1gua era boa. E quando precisava de um pouco de evas\u00e3o, meu trago de cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo no Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os p\u00e9s na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chagamos \u00e0 cho\u00e7a de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca \u2013 foi um carinho ao longo de todos os m\u00fasculos cansados. E ent\u00e3o ele me deu um peda\u00e7o de peixe moqueado e meia caneca de cacha\u00e7a. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cacha\u00e7a e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e vozes distantes de animais noturnos.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel deixar essa eterna inquieta\u00e7\u00e3o das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?<\/p>\n<p>Mas para instaurar uma vida mais simples e s\u00e1bia, ent\u00e3o seria preciso ganhar a vida de outro jeito, n\u00e3o assim, nesse com\u00e9rcio de pequenas pilhas de palavras, esse of\u00edcio absurdo e v\u00e3o de dizer coisas, dizer coisas\u2026 Seria preciso fazer algo de s\u00f3lido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de \u00fatil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.<\/p>\n<p>Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. \u00c9 apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um l\u00e1pis do bolso para tomar nota de um nome, um n\u00famero\u2026 Para que tomar nota? N\u00e3o precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver \u2013 sem\u00a0nome, nem n\u00famero, fortes, doces, distra\u00eddos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeir\u00e3o<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boa tarde! Fa\u00e7amos uma pausa no turbilh\u00e3o de compromissos e obriga\u00e7\u00f5es para ler esta cr\u00f4nica! Que esta leitura seja a sua prioridade nos pr\u00f3ximos cinco minutos&#8230; Cinco minutos de literatura e reflex\u00e3o! Boa semana a todos! 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